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Noite de autógrafos. Por que não desistir?
Na sala amplamente decorada, Tiê aguarda a chegada de Lumi e do público que participará da sua noite de autógrafo, lançamento do seu livro campeão de vendas, ainda na pré-estreia. Observando o espaço, Tiê mergulha num oceano de pensamentos, onde a água cristalina derrama flashes de vida sobre o seu corpo. A corrente de energia a deixa inebriada, envolta nas lembranças do processo literário. Até chegar aquele momento, foram muitas portas trancadas e salas vazias. Inúmeras tentativas de desistência, ante o descaso pela escrita ofertada. As linhas imaginárias traziam tantas histórias nas entrelinhas que ninguém conseguia apreender um possível significado… Os livros são vidas independentes, com enredos, mistérios e caminhos imprecisos. A cada hora, um trecho pode transformar todo o contexto, seja num cenário fantasmagórico ou encantadoramente alegre. Absorta em seus pensamentos, Tiê não viu Lumi se aproximar, o que a pegou desprevenida e totalmente vulnerável em seu olhar. Ele lhe sorriu carinhosamente, com um olhar enevoado, que tenta decifrar o interior dos icebergs. Não houve palavras, apenas cumplicidade de energias, terra e ar, numa simbiose reflexiva do existir. Por milimétricos segundos, esse encontro concentrou o mundo. Aos poucos, outras pessoas foram entrando na sala e vinham cumprimentar as pessoas que organizavam o evento, a escritora e Lumi, o entrevistador/mediador da celebração. Às 21:21h, o evento foi aberto. Lumi, um jovem negro, de aproximadamente 1,76m, cabelos curtos e negros, vestindo uma camisa branca de mangas compridas e calça de brim bege, sapatos esportivos na cor marrom, iniciou a fala da noite. — Boa noite! Hoje estamos celebrando o lançamento do livro “Por que não desistir?” da ilustre e querida escritora Tiê Ribeiro. Nesta noite, teremos uma roda de conversa, com espaço aberto para perguntas e interação com a autora. Cada pessoa inscrita terá 5min para expor a pergunta. — Antes de iniciarmos a ação, convido a escritora para as considerações iniciais. — Boa noite a todas as pessoas, peço licença para fazer uma sucinta audiodescrição. Meu nome é Tiê Ribeiro, sou uma mulher parda, de cabelos castanhos, olhos castanhos, uso óculos, tenho aproximadamente 1,55cm de altura, estou vestindo um vestido vermelho e calço sandálias brancas. — Primeiramente, quero agradecer pelo momento de compartilhamento que viveremos neste dia. Dividir com vocês um pouco do que a escrita representa para mim é um presente incomparável. — Durante anos, a escrita foi para mim uma escuta silenciosa, onde me conectava com meu eu mais profundo. Aos poucos, a raiz que brota do silêncio se espalhou em ramagem pela Terra. — Mas essa Terra, ainda tão ressecada, não conseguia, inicialmente, produzir frutos imediatos, razão pela qual precisou do trabalho das pequenas lagartas, seres incríveis que prepararam o solo para o futuro. — Hoje trago um trabalho amadurecido e tecido nas horas de solidão e também de afeto e compreensão. Alguns momentos ainda são difíceis e desafiadores, todavia, a certeza do compartilhar toma forma e me traz a certeza do porquê não devo desistir. Enquanto Tiê falava, Lumi observava aquela mulher pequenina, de cabelos castanhos, olhos amendoados, corpo franzino. Havia naquela pessoa uma força natural, selvagem em essência, que o empurrava em direção aos seus próprios caminhos e anseios. Não havia promessas na fala dela, mas trazia consigo muitas certezas. Pensou na sua própria existência, na névoa das lembranças das pessoas que partiram para longe, que o deixaram por alívio ou desamparo. A cortina do acaso se abria e, de repente, o mar gélido se transformava em lugar acolhedor, repleto de sensações inebriantes… Finda a fala da autora, as palmas chegaram estridentes, assolapando os pensamentos de Lumi, que voltava ao controle da situação posta. Já posicionado na cadeira à frente de Tiê, ele lhe indaga se já pode iniciar a rodada de perguntas. Diante da resposta afirmativa, Lumi abre o microfone para a primeira pessoa. — Boa noite, Tiê! Meu nome é Ágata, gostaria de saber o motivo do título do livro. — Olá, Ágata! Este livro é um processo de cura, um emaranhado de sentimentos e descobertas. Durante toda a sua produção, passei por momentos de assimilação de sentimento, degustando o desânimo e a esperança. — Acredito que a maioria dos escritores guarda em seu interior o desejo de serem lidos. Esse compartilhamento de pensamentos entre autora e leitora ou leitor é uma mola propulsora para a criação fluir. É uma conversa invisível entre seres. — Ocorre que nem sempre essa escrita chega até o leitor. Muitas vezes, os livros ficam esquecidos nas prateleiras e as conversas se calam no tempo do desistir. Este livro fala sobre a importância do acreditar, do persistir, do entender que não precisamos de números, mas de troca de afetos. Não devemos desistir do amor, nem acreditar no nunca. — Boa noite, Tiê! Meu nome é Carla. A minha pergunta é: você já escreveu outros livros e eles não alcançaram o sucesso que este tem atingido; a que você atribui o sucesso deste livro? — Olá, Carla! É uma satisfação conhecê-la. Não sei exatamente a resposta. Talvez devido ao marketing, ao momento em que foi publicado, ao cenário benéfico para a publicação… — Mas, sinceramente, prefiro acreditar que ele está alcançando o público a que se destina, assim como aconteceram com os outros livros. Não importa o número de leitores, importa que a mensagem chegue até cada um deles e tenha um significado especial em suas vidas. — Boa noite, Tiê! Meu nome é Noah. A minha pergunta de hoje é: o que esse livro representa para você e de que forma você acredita que ele ajudará as pessoas a não desistirem? — Boa noite, Noah! Não esperava essa inspiração tão concreta esta noite. Seu nome traz muitas memórias e histórias que ainda precisam ser contadas. — Bem, como já falei anteriormente, minha escrita me cura, traz oxigênio ao meu viver. Através dela, eu me sinto mais viva, mais feliz, mais confiante e esperançosa. É natural que, se temos algo que nos faz bem, a gente queira compartilhar com outras pessoas, que ideias e boas energias possam ser distribuídas. — Não tenho a pretensão de evitar que as pessoas desistam. O que desejo é que elas parem e pensem sobre o continuar. Que elas possam abrir um parêntese na vida atribulada e possam enxergar as reticências da caminhada. — Não prometo soluções, apenas possibilidades, erros e acertos. — E, tomando como inspiração o seu belo nome, sabemos que a luz do mundo não resolveu ainda todos os problemas deste planeta, mas sabemos também que a semente de amor plantada tem germinado, abraçando muitos corações que lutam por justiça e lealdade. — Por que não desistir? Ainda há muito o que se fazer. As pessoas chegavam, dialogavam e saíam pensativas. Lumi olhava tudo com ar pensativo, ávido na observação, como se cada palavra fosse um santuário de estradas ainda não atravessadas. Ao término das perguntas, as pessoas seguiram enfileiradas para sessão de autógrafos, ansiosas pelas páginas do “Por que não desistir?”. Na penumbra, Lumi cantarolava uma velha canção, satisfeito por encontrar um tempo para si, enamorando-se das possibilidades do que estava por vir.
Valnia Véras
Enviado por Valnia Véras em 23/09/2026
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